Notícias São Paulo não pode mais depender das chuvas: aprendizados de um ano de monitoramento das represas

São Paulo não pode mais depender das chuvas: aprendizados de um ano de monitoramento das represas

04 nov 2026

Represas recuperaram volume em setembro e outubro, mas a análise mensal dos reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de São Paulo revela a fragilidade da segurança hídrica para o abastecimento de mais de 21 milhões de habitantes

04 nov 2026

Represa do Sistema Cantareira (Rovena Rosa/Agência Brasil)
Represa do Sistema Cantareira (Rovena Rosa/Agência Brasil)

O Sistema Cantareira, conjunto de represas que forma o maior manancial da Grande SP, alcançou em outubro a metade da sua capacidade, depois de ter chegado a apenas 20% em dezembro de 2025. A recuperação veio graças a um período de chuvas fora do comum. Em setembro, choveu nos mananciais de três a quatro vezes a média esperada para o mês, e outubro seguiu com alto volume de chuvas, com quase o dobro de volume frente à média histórica. Outras represas do Sistema Integrado Metropolitano (SIM), que abastece cerca de 21 milhões de pessoas em 39 municípios, como os sistemas Guarapiranga, Rio Grande, e Cotia, estão próximas da capacidade máxima.

A chuva trouxe alívio a uma população que, desde agosto de 2025, convive com a redução noturna da pressão da água, a chamada Gestão de Demanda Noturna (GDN), que implicou em torneiras secas por até 10 horas. Quem vive em regiões periféricas e nas partes mais altas da cidade, ou não tem caixa d’água, sentiu mais os efeitos da redução e, geralmente, no horário de volta do trabalho, entre 19h e 20h. Outro impacto relevante é que a variação constante de pressão danifica a rede e aumenta o risco de contaminação da água na rede, que por muitas vezes chega escura na casa das pessoas. 

Com a recuperação dos mananciais, a GDN foi suspensa em novembro, com base na metodologia e regras desenvolvidas pelas agências reguladoras. Com essa medida, é provável que boa parte da população sinta que o problema está ficando para trás. Acontece que a chuva sozinha não basta para resolver o contexto que levou o sistema em 2025 e 2026 aos níveis mais baixos em dez anos. Em outras palavras, São Paulo não pode depender só da chuva para garantir sua segurança hídrica, ou seja, a capacidade de uma população de assegurar, de maneira sustentável, água suficiente e de qualidade adequada para suas necessidades e desenvolvimento.

Um ano atrás, em setembro de 2025, o cenário era o inverso: as represas da RMSP perdiam volume mês após mês. O Sistema Cantareira entrou em estado de alerta. Foi nesse momento que o Instituto Água e Saneamento (IAS) passou a publicar relatórios periódicos sobre a situação dos mananciais, com base nos dados diários divulgados pela Sabesp. 

O que os dados mostraram foi surpreendente. As represas não esvaziaram apenas porque choveu menos (um pouco abaixo da média histórica), mas principalmente porque as retiradas de água estavam batendo recordes. O IAS constatou que, desde 2023, a retirada de água do conjunto de sistemas que abastece a região vinha crescendo. Em 2025, a retirada atingiu a maior vazão desde pelo menos 2010.

Entre 2023 e 2025, a retirada média foi cerca de 10 mil litros por segundo superior à registrada entre 2017 e 2022. Esse volume adicional seria suficiente para abastecer cerca de 3,6 milhões de pessoas — uma vez e meia a população de Salvador¹. Para compreender a dimensão desse aumento, basta compará-lo com o crescimento populacional da RMSP: pouco mais de 1 milhão de habitantes em 12 anos, conforme registram os censos de 2010 e 2022. Sete dos 10 mil litros por segundo adicionais vieram do Sistema Cantareira

Em abril de 2023, após dois anos de chuvas um pouco acima da média, o sistema atingiu 85% da capacidade, seu nível mais alto desde 2011. Essa folga permitiu ampliar a captação. Mesmo quando as chuvas voltaram a ficar abaixo da média, porém, as retiradas continuaram crescendo. Em 2025, o Cantareira forneceu 30% mais água do que em 2023. Seu volume caiu mais rapidamente que o dos demais reservatórios, chegando a cerca de 20% da capacidade em dezembro de 2025¹.

Represa do Sistema Cantareira durante a crise hídrica de 2014-15 (Divulgação/Sabesp)

A crise hídrica da década passada

Entre 2014 e 2016, a RMSP passou pela pior crise de abastecimento da sua história. Na época, o Cantareira operou por um ano e meio com o volume morto, nome da reserva que fica abaixo do nível normal de captação. Muitas regiões enfrentaram cortes diários no fornecimento de água, sem que o racionamento fosse admitido oficialmente. 

A falta d’água pautou o noticiário e o dia a dia da população, que reduziu o consumo e investiu por conta própria em caixas-d’água, cisternas e sistemas de reúso¹. Foi nesse contexto que surgiu a Aliança pela Água, movimento da sociedade civil do qual fizeram parte as fundadoras do IAS. Desde então, sempre que o nível dos reservatórios cai, a memória da crise volta.

No pós-crise, a retirada total do SIM (Sistema Integrado Metropolitano) se manteve em cerca de 62 mil litros por segundo, abaixo dos 69 mil de antes da crise¹. Ao mesmo tempo, o governo estadual e a Sabesp ampliaram os investimentos em obras de interligação entre os sistemas, para reduzir a dependência do Cantareira, e de captação e transferência de água de bacias mais distantes². Foram implantados o Sistema São Lourenço, com captação na bacia do rio Juquiá, e a interligação Jaguari–Atibainha, que permite trazer água da bacia do Paraíba do Sul para o Cantareira, entre outras conexões. Em 2017, a revisão da outorga do Sistema Cantareira estabeleceu limites de retirada que diminuem à medida que o volume armazenado cai.

O novo cenário da água na RMSP

Dez anos depois do fim da crise hídrica da década passada, o sistema chegou a um ponto semelhante, mas por outros caminhos. As soluções adotadas depois da última crise ampliaram a capacidade e a interligação do sistema, mas não bastaram para evitar que ele voltasse a operar sem folga em estado de alerta com impactos no abastecimento da população. Em 2025, não faltou tanta chuva quanto em 2014, mas o contexto mudou. Apontamos três fatores importantes do novo cenário.

O aumento da demanda (consumo e perdas)

Do lado do consumo, mais pessoas passaram a ser atendidas, e a média de consumo por habitante subiu de 172 litros por dia, entre 2017 e 2022, para 192 litros em 2024. As perdas, seja por vazamentos ou por fraudes e falhas de medição, cresceram 15% de 2022 para 2023, e em 2024 correspondiam a 30% da água tratada na RMSP⁴. São os dados públicos mais recentes, e o salto da retirada em 2025 indica que esses números podem ter crescido ainda mais. 

As mudanças na gestão do saneamento

A privatização da Sabesp, em 2024, foi acompanhada por uma reorganização da gestão do saneamento. Os contratos municipais foram substituídos por um contrato único no âmbito da unidade regional (Urae 1), que reúne 375 municípios e o governo estadual. O novo contrato estabeleceu condições mais rígidas para a atuação do Estado e da agência reguladora, reduzindo a autonomia do poder público para adotar medidas de resposta à escassez. Por exemplo, soluções adotadas na crise de 2014 para estimular a redução do consumo, como o desconto na tarifa para quem economizasse água, não foram trazidas à mesa.

A questão climática e a maior incerteza das chuvas

As mudanças climáticas alteram o regime de chuvas, além de serem responsáveis por aumentar a frequência e a intensidade de eventos extremos. É uma nova realidade que amplia os desafios de gestão e exige o aprimoramento dos instrumentos técnicos e científicos de monitoramento, previsão e planejamento.

Transparência melhorou, mas ainda é insuficiente

Desde o início do monitoramento do IAS, observou-se um avanço na disponibilização de informações por parte dos órgãos públicos. Dados de outorga, boletins regulares e informações sobre os mananciais ficaram mais acessíveis. Foi criado o Comitê de Integração das Agências para a Segurança Hídrica, formado pela Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo), que regula o saneamento, e pela SP Águas, que regula os recursos hídricos. O comitê definiu a metodologia que relaciona o nível dos reservatórios ao número de horas de GDN (Gestão da Demanda Noturna). Trata-se de uma iniciativa importante, mas que não conta com representação da sociedade civil, apesar de ter o poder de determinar por quanto tempo a população fica sem água3. 

Faltam, porém, informações e dados sobre a distribuição da água. Enquanto os níveis dos mananciais são divulgados diariamente, as informações sobre consumo e perdas na rede permanecem limitadas. Sabesp e Arsesp não publicam dados operacionais que permitam saber quanto se consome, por quem, e quanto se perde na rede. Os dados públicos mais recentes, do sistema nacional de informações sobre saneamento (Sinisa), chegam com cerca de dois anos de atraso⁴.

Em junho de 2026, a Arsesp aprovou o Plano de Longo Prazo de Oferta Hídrica e Diretrizes de Contingência  da Sabesp, instrumento exigido pelo novo contrato de concessão. O Plano prevê investimentos de R$ 8,2 bilhões até 2030 em segurança hídrica na RMSP, todos em obras de infraestrutura, como interligações entre represas, ampliação de estações de tratamento e reúso de esgoto tratado. Não há recursos para conservação e recuperação dos mananciais, nem medidas para reduzir o consumo e as perdas⁵.

Maior capacidade de reservação, tratamento e transferência não pode significar mais retirada. Expandir a oferta sem reduzir, na mesma medida, as perdas e o consumo pode levar  à maladaptação, ações que, mesmo sem intenção, aumentam o risco ou deslocam a vulnerabilidade para outros grupos e lugares, agora ou no futuro⁶. Por exemplo, a água trazida do Paraíba do Sul para o Cantareira sai de uma bacia que também abastece o Vale do Paraíba e a RM do Rio de Janeiro, e o próprio Cantareira divide sua água com a região de Campinas. Buscar água cada vez mais longe pode aliviar a escassez aqui e agravá-la em outro lugar.

Ao longo deste ano, a sociedade civil levou essas questões ao debate público. O IAS promoveu com outras entidades o seminário Transparente como a Água, na Assembleia Legislativa de São Paulo, em março⁷ e, com Greenpeace, o Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas) e SOS Mata Atlântica, lançou a campanha “Sabesp: Quem Economiza Merece Desconto na Conta de Água”, que reinvindicou alternativas à GDN, como descontos para quem economiza e apoio a quem não consegue armazenar água⁸. Em setembro, cerca de 30 entidades lançaram o movimento Salvemos a Guarapiranga, apoiado pelo IAS, para chamar atenção para um problema que a chuva não resolve, a poluição na represa.

A Guarapiranga, terceira maior reserva da RMSP e responsável pelo abastecimento de 5,6 milhões de pessoas, está quase cheia. Segundo a carta-manifesto do movimento, porém, a proliferação de cianobactérias e macrófitas e a água esverdeada indicam a piora da sua qualidade, causada sobretudo pelo esgoto que chega pelos rios que alimentam a represa. As entidades cobram dados sobre a poluição do manancial que deveriam ser públicos por lei.⁹ O caso mostra que a segurança hídrica depende não só da quantidade de água, mas também da sua qualidade.

A mobilização deixa claro que a vigilância sobre os mananciais não pode ficar restrita ao poder público e à empresa. É preciso garantir participação social no comitê de segurança hídrica e no acompanhamento do contrato da Sabesp.

Represa do Guarapiranga, na Zona Sul de São Paulo (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Uma agenda para os próximos anos

O setor de saneamento básico no Brasil está entre os mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, está entre os mais estratégicos para construir resiliência diante de um clima cada vez mais incerto. Quem afirma isso é o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), organismo científico internacional vinculado à ONU6. Ao conectar recursos hídricos, saneamento e clima, o IAS busca colocar a água no centro do debate sobre adaptação.

Nesse contexto, o monitoramento dos mananciais da RMSP tem peso próprio. O Sistema Integrado Metropolitano abastece mais de 10% da população brasileira e tem no Cantareira seu principal manancial.

As chuvas de setembro e outubro aliviaram o abastecimento, mas não resolveram a segurança hídrica da região, que depende também da demanda, da qualidade da água e da proteção dos mananciais. Será preciso acompanhar o sistema ao menos até o fim da estação chuvosa de 2027, e o aprendizado deste ano pede que o acompanhamento se torne perene, na escassez e no excesso.

O histórico de mobilizações e monitoramento reforça aprendizados que o IAS considera fundamentais para maior resiliência hídrica e garantia do abastecimento humano com quantidade, qualidade, regularidade e equidade:

1. Cuidar das fontes de água

Conservação e recuperação dos mananciais, com reflorestamento, proteção de nascentes e ações de regularização e urbanização das ocupações precárias com saneamento integrado e soluções ambientalmente sustentáveis.

2. Diversificar as fontes

Diferentes qualidades de água para diferentes usos, reúso de esgoto tratado, captação de água da chuva e dessalinização, para que a região não dependa só das represas. 

3. Resiliência a partir do imóvel

Políticas de incentivo à reservação, à captação de chuva e ao reúso de água em casas e prédios, para que essas soluções não fiquem restritas às crises.

4. Decisões baseadas em ciência e adaptadas ao clima

Outorgas modernas, que variem conforme a estação e o volume dos reservatórios, planos de adaptação climática, planos de emergência e contingência e monitoramento contínuo.

5. Gestão da demanda permanente e com ônus compartilhado

Redução de perdas na rede e incentivo ao uso racional em qualquer tempo, como descontos para quem economiza.

6. Transparência e controle social

Dados sobre perdas, consumo e grandes consumidores, participação da sociedade civil nas decisões e comunicação clara sobre a situação dos mananciais.

Para construir um futuro mais seguro e sustentável, não bastam grandes obras de infraestrutura cinza. Como reforça Marussia Whately, cofundadora do IAS, é preciso construir “uma nova cultura de cuidado com a água”: proteger os mananciais, reduzir perdas, tratar e reutilizar a água e garantir uma distribuição justa, com transparência e participação social. Isso também exige medidas de prevenção e planos de contingência construídos pelos governos e pela sociedade para reduzir os impactos da escassez. 

O IAS pretende continuar monitorando esses mananciais, porque ainda há muito a aprender, testar e difundir. Entre os caminhos a explorar estão as soluções baseadas na natureza e as infraestruturas verdes e azuis, que precisam integrar um olhar sistêmico sobre a gestão da água e o abastecimento. A troca de experiências com outras metrópoles do Brasil e do mundo que enfrentam desafios semelhantes de escassez pode levar os aprendizados daqui a outros sistemas e trazer respostas úteis para o nosso contexto.

Notas

1 IAS. Relatórios de monitoramento dos mananciais da RMSP, nº 1 a 11, outubro de 2025 a outubro de 2026. Dados da Sabesp.

2 Sabesp. Plano de Longo Prazo de Oferta Hídrica e Contingência – URAE-1 Sudeste. Janeiro de 2025.

3 Comitê de Integração das Agências para a Segurança Hídrica (Arsesp e SP Águas); Agência SP, “Arsesp mantém redução da pressão em 10 horas e reforça metodologia com foco no Cantareira”, março de 2026; IAS, “Gestão da Demanda Noturna completa um ano como única medida de economia em São Paulo”, 2026.

4 IAS. Consumo e Perdas de Água na RMSP 2013–2024. Abril de 2026. Dados SNIS/SINISA.

5 Sabesp. Plano de Longo Prazo de Oferta Hídrica e Diretrizes para Contingências – URAE-1 Sudeste, 2ª edição, abril de 2026, Tabela 3.1 e p. 123.

6 IAS. Adaptação e Saneamento: por um setor resiliente às mudanças climáticas. Fevereiro de 2025.

7 IAS. “Seminário pede transparência e mobilização em tempos de escassez hídrica”, abril de 2026. Disponível em: aguaesaneamento.org.br

8 Greenpeace Brasil. “Crise hídrica em São Paulo: mobilização para não faltar água”. Disponível em: greenpeace.org/brasil

9 SEESP e entidades signatárias. Carta-Manifesto Salvemos a Guarapiranga. Setembro de 2026. Disponível em: https://www.seesp.org.br/site/images/noticias/MANIFESTO_SALVEMOS_A_GUARAPIRANGA.pdf

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