O fotógrafo Leonardo Carrato traz um relato sobre a Transposição do São Francisco, entre infraestrutura, território e formas de vida
13 out 2026
Por Leonardo Carrato (textos e fotos)
Para mim, nascido em Minas Gerais, o São Francisco nunca foi apenas um rio no mapa. Ele nasce no estado e ocupa um lugar que antecede qualquer interesse profissional que eu pudesse ter por ele. Meu avô costumava passar alguns dias todos os anos pescando no São Francisco. Não cresci às suas margens, nem essa lembrança explica o trabalho que desenvolvo hoje, mas o rio sempre esteve por perto de alguma maneira, como uma referência familiar que não precisava ser explicada.
Foi uma fotografia que deslocou essa relação. A imagem mostrava um dos túneis do Eixo Norte da Transposição ainda em construção. Não pensei imediatamente em fazer um projeto. Lembro mais da estranheza provocada por aquela estrutura e da dificuldade de conciliar a dimensão da escavação com uma ideia tão elementar quanto água correndo. Um rio sendo desviado, elevado e conduzido por dentro de uma montanha para reaparecer muito longe dali.
Para um fotógrafo, talvez faça sentido que um trabalho comece assim: antes de produzir uma imagem, ser movido por outra. Passei praticamente todo o ano de 2024 tentando entender o que havia por trás daquela fotografia. Li livros, artigos, teses acadêmicas, documentos públicos e estudos sobre recursos hídricos e sobre a história social da seca no Nordeste. Quanto mais avançava, porém, menos a Transposição cabia naquilo que primeiro havia me atraído. Sua dimensão física era evidente; mais difícil de apreender era a profundidade histórica da ideia.


Uma das descobertas que mais me marcou foi perceber há quanto tempo o São Francisco aparece como resposta imaginada para o problema da escassez no semiárido. Antes de uma proposta apresentada pelo engenheiro cearense Marcos de Macedo a Dom Pedro II, em 1847, D. João VI já havia mandado estudar a possibilidade de transposição. Durante o Segundo Reinado, o assunto voltaria a ser examinado e reapareceria muitas vezes no debate brasileiro nos séculos seguintes.
Muito antes dos canais, estações e túneis, portanto, havia uma ideia insistente de deslocar aquelas águas — e, sobretudo, uma promessa. Foi durante essa pesquisa que o título do projeto, O Rio Prometido, começou a fazer sentido para mim. Não somente como referência a uma promessa política associada à obra contemporânea, mas como algo reiterado por gerações.
Quando finalmente construída, a Transposição deu uma materialidade extraordinária a essa história. O Projeto de Integração do Rio São Francisco possui 477 quilômetros distribuídos entre os eixos Norte e Leste. O Eixo Leste, que escolhi como primeiro recorte da pesquisa, tem 217 quilômetros. O sistema inclui estações de bombeamento, reservatórios, aquedutos e túneis e, segundo estimativas oficiais, poderá alcançar cerca de 12 milhões de pessoas em aproximadamente 390 municípios de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.
Esses números ajudam a compreender a extensão da infraestrutura, mas dizem pouco sobre a maneira como ela passa a existir na vida de alguém.
Foi somente em agosto de 2025, depois de aproximadamente um ano de pesquisa, que fiz minha primeira viagem. Durante quinze dias percorri o Eixo Leste de Floresta, em Pernambuco, até Monteiro, na Paraíba. Depois de tantos mapas, documentos e fotografias, havia finalmente a experiência física da distância e aquilo que nenhum levantamento preparatório consegue antecipar. Cheguei com muito mais informação do que teria um ano antes e, justamente por isso, talvez com menos certezas.


Há mais de uma década desenvolvo projetos fotográficos autorais de longa duração, baseados em pesquisa, convivência e retorno. Voltar aos mesmos lugares significa também descobrir o que não percebi anteriormente e, algumas vezes, abandonar uma hipótese que parecia bastante clara à distância. Essa prática me ensinou a desconfiar da imagem que chega cedo demais a uma conclusão. Em O Rio Prometido, o tempo não é apenas uma questão de método; pertence ao próprio assunto.
No campo percebi também o peso das imagens que eu carregava comigo. O sertão brasileiro foi representado repetidamente pela literatura, pelo cinema, pela fotografia, pela imprensa e pela política. Seca, retirada, pobreza, chão rachado e escassez compõem um repertório tão persistente que condições produzidas historicamente muitas vezes parecem propriedades naturais da paisagem. Eu conhecia criticamente essa tradição antes de viajar; isso, no entanto, não significava estar fora dela.
Produzir simplesmente sua imagem inversa me parecia igualmente limitado. Um sertão irrigado, verde e redimido pela engenharia continuaria preso à mesma operação: substituir uma representação totalizante por outra. A estranheza que começou com a fotografia do túnel ganhou então outra função. Já não era apenas o espanto diante da engenharia, mas uma maneira de prestar atenção ao que não coincidia inteiramente com aquilo que eu havia aprendido a procurar.


Foi nesse processo que presença e ausência começaram a organizar meu entendimento da obra. A Transposição se impõe quando aparece como infraestrutura: o concreto corta a pedra, geometriza a paisagem e conduz uma água que, sem aquelas estruturas, não estaria ali. Contudo, conforme avançava, percebia que sua presença nem sempre coincidia com sua visibilidade. Um canal pode estar fora do quadro e participar das condições de uma vida; inversamente, estar diante de quilômetros de concreto não significa compreender como aquilo chega a quem vive nas proximidades.
A obra começou a recuar das fotografias sem desaparecer do trabalho
Essa passagem tem algo do que entendo como uma dobra: uma força exterior, monumental e planejada em outra dimensão começa a se curvar sobre o cotidiano e, ao mesmo tempo, a ser modificada por ele. Passei mais tempo junto às pessoas, enquanto situações aparentemente laterais ganhavam importância. A investigação se deslocou dos efeitos imediatamente visíveis da engenharia para aquilo que uma nova condição pode produzir nas relações e nas formas de estar num lugar.

É nesse terreno que penso o trabalho no campo dos afetos e das subjetividades. Afeto, aqui, não é simplesmente sentimento. Interessa-me aquilo que um encontro, uma paisagem, uma obra ou a disponibilidade de água faz variar na capacidade de agir, desejar, imaginar ou estabelecer relações. A mudança pode ser material ou econômica, mas pode surgir também num uso não previsto, num hábito ou numa decisão que antes não se colocava.
Os reservatórios tornaram isso especialmente visível. Embora tenham sido construídos como parte de um sistema de armazenamento e distribuição hídrica, encontrei em suas margens pessoas mergulhando, descansando, encontrando amigos, pescando ou simplesmente passando uma tarde junto à água. A função técnica continua lá, mas já não determina tudo o que acontece.
Há nesse deslocamento algo que penso como devir: depois de construída, a obra já não pertence somente ao desenho que a precedeu. Os usos se multiplicam e produzem relações que nenhuma planta de engenharia conseguiria antecipar.



Uma questão simples permanece comigo: o que alguém passa a poder decidir quando a disponibilidade de água muda? A resposta não é a mesma em toda parte. Água pode chegar a determinada região e continuar inacessível para alguém que vive próximo ao canal. Um cultivo pode tornar-se viável enquanto outras precariedades permanecem. Ao mesmo tempo, situações antes improváveis começam efetivamente a existir. É nessa coexistência que encontro a brecha na qual quero trabalhar.


Não se trata de procurar uma posição neutra entre celebrar ou condenar a Transposição. Há conflitos, desigualdades, decisões políticas e consequências que precisam ser estudados em seus próprios termos. Porém, como fotógrafo, interessa-me aquilo que ainda resiste a um veredito: uma presença que convive com ausências, transformações que não eliminam permanências, uma promessa que ganha matéria e, ao fazê-lo, produz outras questões.
A água chega; o rio, não
A engenharia consegue captar água do São Francisco, elevá-la, conduzi-la por centenas de quilômetros e fazê-la aparecer em lugares onde o corpo do rio jamais passou. Mas aquilo que chega junto com essa água não pode ser transportado da mesma maneira. Depende das relações que se estabelecem no novo território.


Por isso tenho alguma resistência à ideia de que a Transposição simplesmente “leva o São Francisco” ao sertão. Ela leva água do São Francisco. Depois começa outra coisa.
É nessa diferença que encontro também um fora do projeto: aquilo que escapa tanto à função prevista para a infraestrutura quanto à narrativa construída sobre ela. Uma pessoa não existe ali apenas como beneficiária de uma política hídrica; uma casa não precisa demonstrar uma transformação. Se a obra passa a explicar tudo ao redor dela, o território deixa de existir em sua própria complexidade e vira apenas comprovação de uma hipótese.
A fotografia pode manter alguma distância dessa exigência. O sentido não precisa estar inteiro em cada imagem; pode aparecer na relação entre elas e também naquilo que permanece sem resolução. Talvez por isso eu esteja menos interessado em fotografar “a mudança” do que em acompanhar o que começa a variar quando determinadas condições se alteram.
O mesmo vale para o imaginário. Não apenas aquele que nós, de fora, projetamos sobre o sertão, mas o modo como alguém passa a pensar sua relação com o lugar em que vive. Uma estação de bombeamento pode ser fotografada em uma tarde; as consequências de uma alteração na disponibilidade de água podem levar anos para aparecer numa decisão familiar, numa forma de trabalho ou na possibilidade de permanecer.

É aí que O Rio Prometido está hoje. A primeira viagem estabeleceu relações e abriu caminhos, mas sobretudo alterou as perguntas que eu tinha antes de chegar. Quero continuar pesquisando, voltando às mesmas pessoas e lugares e aproximando o conhecimento produzido nos livros daquele que existe na experiência de quem vive ali. Um não substitui o outro, e talvez parte do trabalho esteja justamente nessa fricção.
Quase dois séculos separam algumas das primeiras tentativas de imaginar a Transposição da água que hoje percorre seus canais. O tempo do meu trabalho será evidentemente outro, mas essa distância deixou algo claro: uma promessa não termina necessariamente quando ganha forma. Algumas de suas consequências talvez só possam ser reconhecidas depois.

Leonardo Carrato é fotógrafo documental e membro da VII Foundation. Desde 2022, desenvolve uma pesquisa sobre a Transposição do Rio São Francisco e sobre as transformações sociais, territoriais e ambientais relacionadas à água no Semiárido brasileiro.
Fontes
Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). São Francisco. Informações sobre a nascente do rio na Serra da Canastra, em Minas Gerais.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). César Nunes de Castro. Transposição do Rio São Francisco: análise de oportunidade do projeto. Texto para Discussão no 1577
Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). Projeto de Integração do Rio São Francisco – O Projeto.
Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR). Água para 12 milhões de pessoas.
Acervo e cadernos de campo de Leonardo Carrato, 2024-2026.
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