Notícias Planeta entra em estado de ‘falência hídrica’, segundo relatório da ONU

Planeta entra em estado de ‘falência hídrica’, segundo relatório da ONU

10 fev 2026

Entre as razões estão a extração muito acima da capacidade de reposição, poluição ambiental, os efeitos das mudanças climáticas e o uso intensivo dos recursos pela agricultura

10 fev 2026

Processo de erosão em região da Austrália (Wikimedia Commons)
Processo de erosão em região da Austrália (Wikimedia Commons)

O termo crise hídrica tem aparecido com frequência na mídia para descrever a situação na Região Metropolitana de São Paulo, em que o Sistema Cantareira registra volumes em níveis preocupantes. Mas o que existe depois da crise hídrica? Existe uma situação pior que essa?

É o que aponta um estudo lançado pelas Nações Unidas ao destacar a condição de “falência hídrica” em diversas regiões do mundo onde recursos hídricos estão se esgotando além dos limites sustentáveis. 

O documento “Global Water Bankruptcy – Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era” (“Falência Hídrica Global – Vivendo além das nossas capacidades hidrológicas na era pós-crise”, em tradução livre) foi preparado pelo Instituto da Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH).

Em geral, uma crise hídrica é entendida como um afastamento temporário das condições normais devido a um choque agudo (como seca, enchente, tempestade, furacão, incêndio florestal ou evento de contaminação), seguido por algum tipo de resolução. Já a falência hídrica significa que muitos sistemas não podem voltar aos níveis históricos anteriores sem custos sociais, econômicos ou ambientais enormes.

Entre as razões por trás da falência de corpos d’água e aquíferos estão a extração de água em excesso, muito acima da capacidade de reposição; a degradação e a poluição ambiental, os efeitos das mudanças climáticas como secas, chuvas irregulares e derretimento de geleiras, e o uso intensivo dos recursos pela agricultura (responsável por cerca de 70 % da água retirada em todo o mundo).

Uma metáfora financeira

O estudo se vale de termos financeiros para destacar que os fluxos de água renováveis e o armazenamento natural de longo prazo de uma sociedade são comparáveis ao uso de uma conta bancária, onde a água superficial seria a conta corrente e a água subterrânea, a conta poupança. Assim, muitas bacias e aquíferos entraram em “falência” graças a extrações contínuas que excedem os limites de reposição renovável. 

De acordo com a ONU, é como se diversas sociedades tivessem se excedido nos gastos em relação a seu uso de água proveniente de rios, solos e neve acumulada, assim como de aquíferos, geleiras, pântanos e outros reservatórios naturais. “Isso resultou em uma lista crescente de aquíferos compactados, afundamento do solo em deltas e cidades costeiras, desaparecimento de lagos e pântanos e perda irreversível de biodiversidade”, afirma o relatório. 

Apesar de nem todas as bacias hidrográficas ou países estarem em situação de falência hídrica, um número suficiente de sistemas críticos em todo o mundo ultrapassou esses limites — e está interligado por meio do comércio, da migração, dos efeitos climáticos e das dependências geopolíticas — de modo que o cenário de risco global está agora fundamentalmente alterado. Por isso, o relatório da ONU afirma que “todo o sistema global humano-hídrico [water-human]” já entrou na era da falência global da água.

Entre os locais considerados hidrologicamente falidos que aparecem no estudo estão o Mar de Aral, localizado entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, o terceiro lago do mundo, e o Great Salt Lake (Grande Lago Salgado), no estado de Utah, nos Estados Unidos. 

Cerca de 70% dos principais aquíferos do mundo apresentam tendências de declínio a longo prazo, muitos deles efetivamente irreversíveis em escalas de tempo humanas devido à compactação e à perda da capacidade de armazenamento dos aquíferos.

O documento afirma que regiões nessa condição podem sentir impactos na justiça, segurança e economia política. Sem um compromisso deliberado com a equidade, os custos da adaptação recairão desproporcionalmente sobre agricultores, comunidades rurais, povos indígenas, moradores de áreas urbanas informais, mulheres, jovens e outros grupos vulneráveis. Esse desequilíbrio aumenta o risco de agitação social e conflitos em muitas regiões.

Segundo o relatório, cerca de quatro bilhões de pessoas — quase metade da população global — vivem sob escassez severa de água por pelo menos um mês por ano, ou seja, sem acesso a água suficiente para atender a todas as suas necessidades. Muitas outras pessoas sofrem as consequências do déficit hídrico, que se traduz em reservatórios secos, cidades afundando, quebras de safra, racionamento de água, incêndios florestais e tempestades de areia e poeira mais frequentes.

Além disso, a degradação da qualidade da água está reduzindo a base de recursos efetivamente utilizáveis. Em muitas bacias, a poluição proveniente de esgoto não tratado ou inadequadamente tratado, do escoamento agrícola, de efluentes industriais e da mineração, além da salinização, faz com que uma parcela crescente da água deixe de ser segura ou economicamente viável para consumo humano, produção de alimentos ou manutenção dos ecossistemas — mesmo em contextos em que os volumes nominais ainda não tenham diminuído de forma significativa.

Imagens de satélite de 1989 e 2025 mostram diminuição do mar de Aral, situando entre Cazaquistão e Uzbequistão (Reprodução)

A situação no Brasil

O documento da ONU não traz dados específicos sobre o Brasil, mas é possível ter uma ideia da situação dos recursos hídricos do país por meio do levantamento anual da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico). 

O “Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil” de 2025, afirma que “a maior parte do território nacional apresenta baixos níveis de comprometimento [hídrico], que crescem em direção à região leste do país, onde se concentra a maior parte da população e, consequentemente, da demanda por água”.

Segundo o estudo, de modo geral, as áreas consideradas “críticas”, pior situação em um sistema de classificação de cinco níveis, estão relacionadas a pólos de agricultura irrigada, que tem colocado cada vez mais pressão nos recursos hídricos disponíveis.

O livro “Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento”, publicado pelo MCTI (Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação), destaca o semiárido como região onde o “balanço hídrico tende a ser negativo”, uma vez que a recarga natural em um contexto de poucas chuvas e alta evapotranspiração costuma ser inferior que a demanda, especialmente em áreas de uso intensivo. “Essas situações têm levado à redução de vazões ecológicas, à sobre-exploração de aquíferos e à degradação da qualidade da água”, afirma o texto. 

Como lidar com essa situação

O documento elenca diretrizes para orientar políticas públicas que tenham como objetivo proteger o capital natural relacionado à água antes que os danos se tornem completamente irreversíveis.

A gestão da falência no setor de água deve abordar a insolvência e a irreversibilidade. Ao contrário da gestão de falências financeiras, que lida apenas com a insolvência, a gestão de falências no setor de água deve se preocupar com o reequilíbrio entre a oferta e a procura em condições em que retornar às condições anteriores já não é possível.

É preciso uma mudança de paradigma, passando da gestão de crises para a gestão da falência. A prioridade já não é “voltar ao normal”, mas sim prevenir danos irreversíveis adicionais. Isso inclui adequar direitos e reivindicações dentro de capacidades de suporte degradadas, transformar setores e modelos de desenvolvimento com uso intensivo de água e apoiar transições justas para os mais afetados.

O documento assinala ainda que uma nova agenda global para a água é urgentemente necessária. Observa ainda que agendas existentes e as políticas hídricas convencionais, focadas principalmente em WASH (água, saneamento e higiene), ganhos incrementais de eficiência e diretrizes genéricas de GIRH (Gestão Integrada de Recursos Hídricos), não são suficientes para a atual realidade hídrica mundial.

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