A arte como instrumento na luta por Direitos Humanos

A arte como instrumento na luta por Direitos Humanos

Conheça artistas de diversos segmentos que eternizaram em suas obras a necessidade de efetivar os Direitos Humanos no Brasil e no mundo

Neste sábado, dia 10/12, é celebrado o Dia Internacional dos Direitos Humanos. É uma data importante para refletir sobre como avançar na concretização da justiça social no Brasil e no mundo. O Instituto Água e Saneamento (IAS) homenageia a data por meio de um dos maiores reflexos da essência humana: a arte, que também é uma ferramenta essencial na luta por direitos. 

Ainda hoje, há quem acredite que os Direitos Humanos (DHs) são um dispositivo inventado para proteger certos grupos ou pessoas. Os DHs são o reconhecimento de que, apesar das diferenças culturais e simbólicas, existem aspectos básicos da vida humana que precisam ser respeitados e garantidos. Logo, eles são aplicados a todas as pessoas, porque são universais e inalienáveis, segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento base dos DHs, lançada em 10 de dezembro de 1948, após o período da Segunda Guerra Mundial.

Libertadora, a arte tem o poder de tocar a alma e produzir experiências transformadoras, além de dar visibilidade a questões relacionadas à busca por igualdade e dignidade. No filme “O Pianista”, que conta a história do artista polonês Wladyslaw Szpilman, ao tocar o seu piano o protagonista é salvo pela arte. 

Não somente nos filmes os Direitos Humanos são expressos, reivindicados e consagrados por grandes nomes da música como Bob Dylan, com destaque para a música Hurricane sobre o ex-pugilista negro preso injustamente nos EUA; e Johnny Cash, que gravou o álbum At Folsom Prison dentro de um presídio de segurança máxima nos Estados Unidos, enfrentando críticas ao tentar demonstrar que toda a vida merece dignidade, na década de 1960.

Da Jamaica para o mundo, o cantor e compositor Bob Marley expôs as desigualdades racial e social em suas músicas e ressaltou que, para que não haja mais guerra, é necessário que “os Direitos Humanos básicos sejam igualmente garantidos a todos, sem discriminação de raça”.

“That until the basic human rights are equally guaranteed to all, without regard to race.” Bob Marley, cantor e compositor jamaicano. Foto: divulgação.

Os Direitos Humanos também estão presentes na obra de Françoise Schein, arquiteta e urbanista belga que apresenta trabalhos artísticos-educativos sobre o tema nos quatro continentes. O Brasil ocupa um lugar especial no coração da artista. Françoise assina a primeira intervenção artística sobre Direitos Humanos em uma estação de metrô no país: Luz do Brasil, obra da Estação da Luz, em São Paulo. 

No Brasil, artistas marcaram a história com suas canções como Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Elis Regina, Geraldo Vandré e Raul Seixas. Gal Costa, que recentemente nos deixou, desafiou a Ditadura Militar com o show “Gal a todo vapor”, em 1971, participou dos Doces Bárbaros e gravou diversas músicas de protesto. Gilberto Gil, também integrante dos Doces Bárbaros, nos convida a pensar o amor, as descobertas e criticar prisões, sejam elas mentais ou físicas. “Racha, os muros das prisões”, ele ordena em Extra, álbum lançado em 1983.

Anos depois, diante da desigualdade social que assolava – e ainda assola – o país, o rock tornou-se um dos porta-vozes da indignação diante da falta de perspectivas. “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”, contava Arnaldo Antunes, no Titãs, em 1987. A música “Comida”, dele, de Marcelo Fromer e Sérgio Britto foi regravada diversas vezes.

Água e esgotamento sanitário também são direitos humanos

“Traga-me um copo d’água, tenho sede, e essa sede pode me matar”
Dominguinhos e Anastácia

Períodos grandes de estiagem com migrações para fugir da seca, grandes e caudalosos rios, mangues, enchentes, alagamentos, crianças brincando em comunidades com esgoto a céu aberto. Em um país com diversidade climática e de biodiversidade, as mais diversas manifestações artísticas retratam belezas e mazelas relacionadas à abundância e à escassez de água. Invisível, na maioria das vezes, é a importância do esgotamento sanitário para a saúde da população e preservação ambiental na arte. 

Confira a playlist Água, Saneamento, Clima e Direitos Humanos : https://spoti.fi/3pzjvSC

Composições nacionais e internacionais abordam temas referentes à água, clima, saneamento básico e direitos humanos nessa playlist selecionada e disponibilizada no canal do IAS, no Spotify. Desde Asa Branca, do saudoso Luiz Gonzaga, sobre a seca no Brasil, até a canção-protesto Earth Song, do astro Michael Jackson, sobre as consequências da influência do homem na natureza. A lista inclui, ainda, “You Must Be Kidding”, do Will Butler, da banda Arcade Fire, canção inspirada na seca prolongada de São Paulo e o colapso no sistema Cantareira em 2015.

O acesso à água potável e à coleta e tratamento de esgoto são direitos humanos reconhecidos pela ONU. No entanto, ainda falta muito para que sejam universalizados no território brasileiro. 107 milhões de brasileiros não têm acesso adequado ao serviço de esgotamento sanitário e 86 milhões têm acesso à água de forma precária.

Chico Science e Nação Zumbi visibilizaram, em Manguetown, a realidade de quem vive em regiões precárias, ocupando mangues e morros em toda a região metropolitana do Recife. Em Alagados, os Paralamas do Sucesso cantam a situação de ocupações urbanas precárias em relação ao saneamento básico. 

Brasil, terra indígena

Em um texto sobre direitos humanos e arte, os povos originários brasileiros merecem todo o destaque. As populações indígenas mantêm uma relação íntima com a água. Em “Sabedoria das Águas” (Global Editora, 2004), Daniel Munduruku conta a história fictícia do indígena Koru, que, ao mergulhar na sabedoria das águas do rio Tapajós, descobre mistérios de seu próprio coração. 

Em “Livro das águas – Índios do Xingu” (Instituto Socioambiental, 2002), professores indígenas, Maria Cristina Troncarelli, Estela Würker e especialistas do Instituto Socioambiental (ISA) fizeram uma publicação abordando os recursos hídricos com diversas informações sobre a água doce e salgada, seu ciclo, a relação entre água, clima, solo e vegetação, os impactos ambientais, mas também os seres de acordo com a cultura indígena.

No livro “Onde a onça bebe água” (Cosac Naify, 2015), Veronica Stigger, a partir da obra de Eduardo Viveiros de Castro, apresenta “uma história contada à maneira de um mito, uma experiência de transformação da tradição mítica ameríndia, tradição na qual a transformação é o tema maior. Tudo ali existe para virar outra coisa.” Por exemplo, a passagem em que cocô vira fruta nos lembra da urgência de transformar, na nossa sociedade, o esgoto em fertilizantes e outros insumos agrícolas. Uma aula sobre como a sociedade brasileira pode aprender com as sociedades indígenas, de uma forma bem poética, lindamente ilustrado.

Além da literatura escrita e inspirada por indígenas, inúmeras produções recentes no cinema, no teatro, nas artes plásticas e exposições nos principais espaços expositivos do país são a prova de que a questão indígena está em plena ascensão. O documentário “Pisar suavemente na terra” (2022) de Marcos Colón, lançado na 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mostra a luta de lideranças indígenas para proteger seus territórios. O projeto TePI – Teatro e os Povos Indígenas, com direção de Andreia Duarte, apresenta “a importância do protagonismo artístico indígena em sua expressão e representatividade”, a partir da diversidade e valorização do corpo que o teatro propicia. 

Também no Instituto Moreira Salles (IMS) está em cartaz a exposição da produção audiovisual de diretores indígenas, “Xingu: Contatos”, em cartaz até abril de 2023. Ainda tem “Nhe´e Porã: Memória e Transformação”, exposição sobre as línguas indígenas faladas hoje no Brasil, no Museu da Língua Portuguesa, também em cartaz até abril de 2023 (https://www.museudalinguaportuguesa.org.br/memoria/exposicoes-temporarias/nhee-pora-memoria-e-transformacao/).

A relação entre arte e direitos humanos é inesgotável. Trouxemos nesse texto algumas sugestões e preparamos uma série de indicações de obras literárias, filmes, documentários e músicas a serem compartilhadas em nossas redes sociais. Acompanhe  e ajude-nos a produzir esse conteúdo, que será constante. Envie sugestões pelas nossas redes ou pelo email [email protected]

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