Notícias Seminário pede transparência e mobilização em tempos de escassez hídrica

Seminário pede transparência e mobilização em tempos de escassez hídrica

09 abr 2026

Evento mobilizou representantes da sociedade civil em prol da segurança hídrica, incluindo o IAS. Lembrança da atuação da Aliança pela Água na crise hídrica de 2014 e 2015 permeou o evento.

09 abr 2026

alesp crise hidrica

“Estamos em mais uma crise hídrica?”, a pergunta-provocação que acompanha o título do seminário “Transparente como a água: Choveu mas tem torneira seca”, alude a uma situação em que, mais uma vez, a população da Grande São Paulo tem que lidar com incerteza e falta de informação em relação à segurança hídrica.

Os volumes baixos do Sistema Cantareira em meses recentes, a diminuição de pressão durante 10 horas mantida pela Sabesp em março, os inúmeros relatos de falta prolongada de água em áreas periféricas, a ausência de clareza sobre a situação e perspectivas de abastecimento acabam deixando a sociedade sem respostas. Para os representantes das organizações envolvidas com o evento, essa situação pede mais transparência das autoridades e mais mobilização social. 

Realizado em 26 de março, na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), com apoio do gabinete da deputada Marina Helou (PSB), da Frente Parlamentar Ambientalista, o encontro reuniu as organizações SOS Mata Atlântica, OGA (Observatório da Governança das Águas), Ondas (Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento), IAS (Instituto Água e Saneamento), Instituto Rios e Ruas, SEAE (Sociedade Ecológica Amigos de Embu), Cisterna Já e Pequenos Paraísos. Também estiveram presentes o deputado federal Nilton Tatto, da Frente Ambientalista da Câmara dos Deputados, e uma caravana organizada pela Fundação Julita.

A lembrança da atuação da Aliança pela Água na crise hídrica de 2014 e 2015 permeou o evento. A Aliança foi uma coalizão de organizações da sociedade civil que tinham como pauta a construção da segurança hídrica em São Paulo. O movimento buscou coordenar várias iniciativas existentes na época, fortalecendo a sociedade para debater e executar questões e caminhos. Coordenada por Marussia Whately (atual diretora-executiva do Instituto Água e Saneamento), a Aliança pela Água chegou a reunir mais de 80 ONGs e 200 especialistas em recursos hídricos e meio ambiente (o IAS foi criado em 2019 a partir da Aliança).

Falta de transparência

Na fala de abertura, a deputada Marina Helou ressaltou que falta de informação e clareza prejudicam as pessoas. “Falta um passo corajoso, de trazer transparência, chamar a população para participar e construir soluções que a bonifiquem e não a penalizem pela falta d’água”, afirmou Marina Helou,. A deputada citou fatores como mudanças climáticas, grilagem e a falta de gestão “que resulta em perdas de água” como sendo causadores da situação. 

A busca por informação e conhecimento foi um dos motivadores do evento, sublinhou Gustavo Veronesi, do SOS Mata Atlântica, logo no início. O seminário é apenas o começo de um processo onde se buscará debater com seriedade os temas com o objetivo de chegar em soluções para que não tenhamos uma nova crise hídrica, disse o ambientalista.

Aliança pela Água

Em relação à Aliança pela Água, a jornalista e agricultora Claudia Visoni lembrou que planos e estratégias produzidos à época da coalizão estão “prontos” e podem ser aplicados ao contexto atual. “O contexto piorou muito, mas a gente trabalhou muito lá atrás”, brincou. Visoni também lembrou do aplicativo criado pela Aliança em que a população podia registrar a falta de água pela cidade, uma ferramenta que serviu para contrapor a narrativa governamental do período, de que a situação estava normal. 

“Se tivessem sido feitas muitas das coisas que foram colocadas ali [pela Aliança], talvez a gente não tivesse passando de novo por isso”, observou Veronesi, do SOS Mata Atlântica. 

Participação social

Iniciativas e movimentos da sociedade também estiveram na pauta do seminário. Barreto recordou o papel da Aliança na elaboração do Plano de Contingência de Água em São Paulo. Lançado em 2015, ele define ações para situações de estiagem e riscos de colapso no abastecimento, com três níveis de atuação (Atenção, Alerta, Emergência).

A reativação do movimento Cisterna Já, que ensinou cidadãos a fazer suas próprias cisternas na crise hídrica da década passada, foi mencionada por Visoni. “As bombonas para fazer cisterna ainda estão acessíveis no mercado, ainda estão baratas”, alertou. “Porque na hora que a crise aperta, essas bombonas [para cisterna] desaparecem”. 

A questão climática

A crise hídrica de 2014 e 2015 serve como uma referência histórica em vários sentidos quando se olha para a situação atual das represas, na visão dos participantes. A situação extrema, de quase colapso, foi lembrada, assim como a consequente reação da sociedade civil, que culminou na criação da Aliança Pela Água, coordenada por Marussia Whately (fundadora do IAS). 

A situação atual, no entanto, precisa ser entendida à luz das mudanças climáticas, como destacou Samuel Barreto, pesquisador do OGA, na fala de abertura. A escassez hídrica não pode mais ser tratada como “coisa isolada’, mas como parte de uma conjuntura maior de mudanças climáticas, lembrou. Nesse cenário, modelos econômicos de exploração insustentável exercem maior pressão sobre os aquíferos, uma vez que ocorre a redução das águas superficiais.

Dentro do contexto climático, a estiagem prolongada de 2025 e as previsões de pouca chuva para este ano foram destacados na apresentação de Eduardo Caetano, coordenador de conhecimento e difusão do IAS. Caetano mostrou como a Sabesp aumentou a retirada de água dos mananciais da RMSP em 2025 apesar dos volumes em queda. Também abordou previsões hidrológicas do Cemaden para 2026 que indicam ser temerária a situação das represas do Sistema Cantareira, ainda que venha chovendo desde fevereiro. 

“Não estamos preparados para crise alguma”, reforçou Cesar Pergoraro, do SOS Mata Atlântica, que comentou sobre a importância de termos visões e ações que promovam a resiliência diante das mudanças climáticas, em cenários que se mostram cada vez mais desafiadores. 

Novos arranjos institucionais

Outra diferença importante em relação à crise hídrica de uma década atrás está relacionada à aprovação do Marco Legal de 2020 e aos novos arranjos regionais que ele trouxe para a gestão do abastecimento de água. Soma-se a esse fator a privatização da Sabesp pelo governo do estado de São Paulo e o resultado é um quadro institucional e administrativo completamente novo. 

Amauri Pollachi, do Ondas, destacou que a conjuntura atual reduziu em muito a possibilidade de controle social dos prestadores de serviços e tirou o poder e autonomia dos municípios nas decisões sobre água e saneamento. 

Desigualdade

A desigualdade do acesso e da qualidade dos serviços de água e saneamento, direitos humanos reconhecidos pela ONU, foram ressaltados pelos participantes. Barreto (OGA) falou sobre a relação entre água e gênero, tema escolhido pela ONU para o Dia Mundial da Água em 2026. Polacchi complementou dizendo que crises hídricas também seguem uma lógica de desigualdade, afetando muito mais não apenas mulheres, como pessoas, pretas, pardas e indígenas. 

Miriam Hermógenes, coordenadora nacional da Central dos Movimentos Populares, reforçou como a vida da mulher “tem que mudar drasticamente” quando falta água. Ela exemplificou: “A mulher chega à noite do trabalho, com horário contado, e daí não tem água. O tempo que ela tira para aquela atividade acaba sendo o dobro porque ela tem que ir atrás de água”. 

Atravessando os diversos temas, participantes enfatizaram a necessidade de que esse debate não seja isolado, restrito a quem atua na área ambiental ou do saneamento, e que inclua a sociedade em geral. A mobilização e engajamento da população é muito importante nesse momento. 

Veja o seminário na íntegra

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