Rio Tietê não tem trecho ‘plenamente saudável’, diz estudo do SOS Mata Atlântica
01 Jul 2026
Todos os locais analisados pelos pesquisadores da Expedição Tietê 2025 continham algum tipo de contaminacão, incluindo microplásticos, agrotóxicos ou drogas ilícitas
01 Jul 2026
Um dos rios mais importantes do estado de São Paulo, o Tietê se tornou ao longo dos tempos um grande repositório para diferentes tipos de poluição e resíduos. Um levantamento do SOS Mata Atlântica publicado em junho revela em detalhes quais os agentes que contaminam o curso d’água de 1.100 quilômetros, onde se concentra grande parte da população e da atividade econômica paulista.
“Não há trecho com qualidade da água plenamente saudável no Tietê. Todos os locais analisados apresentaram algum nível de contaminação, seja de natureza orgânica, química ou física”, declararam os pesquisadores.
Com uma equipe multidisciplinar, a Expedição Tietê 2025 analisou 14 pontos ao longo de toda a extensão do rio, que passa por 65 municípios, da nascente, em Salesópolis, até a foz, no rio Paraná, em Itapura.

Amostras da água foram recolhidas em áreas de perfis diferentes, incluindo regiões agrícolas, trechos de urbanização intensa e áreas com vegetação nativa preservada. Foram realizadas pesquisas microbiológicas, físico-químicas e biogeoquímicas (carbono e nitrogênio). Também foram investigadas a presença de agrotóxicos, microplásticos e contaminantes emergentes, como remédios e drogas ilícitas.
“Mais do que registrar indicadores isolados, o estudo busca compreender como diferentes pressões urbanas, industriais, agrícolas e relacionadas ao uso e à ocupação do território se combinam ao longo da bacia”, afirma o texto de apresentação do estudo.
Segundo o relatório do levantamento, foram identificados microplásticos em todos os pontos do rio em que foram colhidas amostras (incluindo a nascente), assim como 25 tipos de agrotóxicos e 16 substâncias entre fármacos e drogas ilícitas. A grande presença de matéria orgânica e compostos nitrogenados revela o impacto do esgoto doméstico, dos efluentes industriais e das regiões de alta urbanização sobre o rio.
Como era esperado, os quatro pontos de coleta nos trechos mais urbanizados da bacia apresentaram os piores índices de degradação. Nos municípios de Mogi das Cruzes, Guarulhos, Osasco e Pirapora do Bom Jesus, na Região Metropolitana de São Paulo, trecho do Alto Tietê, foram registrados os menores valores de oxigênio dissolvido e as maiores concentrações de carbono orgânico e nitrogênio dissolvido. Além disso, também foram medidos altos índices altos de contaminação microbiológica, presença de fármacos, drogas ilícitas como cocaína e aumento expressivo de microplásticos, componentes associados ao esgoto doméstico.
As análises sobre agrotóxicos constataram expressiva presença de herbicidas, fungicidas e inseticidas nas regiões do Médio e do Baixo Tietê, onde há agricultura intensiva, principalmente cultivo de cana-de-açúcar.
Uma das principais conclusões do trabalho se refere à interação entre as “múltiplas camadas simultâneas de contaminação”, que não atuam de forma isolada no corpo hídrico, sejam os microplásticos que absorvem agrotóxicos e fármacos ou os processos de eutrofização (excesso de nutrientes na água) que favorecem a proliferação de bactérias.
O levantamento foi desenvolvido pelo SOS Mata Atlântica em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Federal do ABC (UFABC), do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/ USP) e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS).
Para os pesquisadores, a melhoria da qualidade do rio Tietê demanda não apenas ações pontuais, mas uma abordagem sistêmica, “baseada em monitoramento contínuo, integração de dados e governança coordenada em escala de bacia hidrográfica”.
O documento lembra ainda que as condições em que se encontram diversos trechos do Tietê acabam contrariando princípios da legislação estadual e da Constituição do Estado de São Paulo ao impedir a utilização das suas águas pela população.
“Expedição Tietê 2025” foi lançado na Assembleia Legislativa de São Paulo em 25 de junho, em evento promovido pela Frente Parlamentar Ambientalista junto com o SOS Mata Atlântica.
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